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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O cuidado com a automedicação do paciente com hepatite

         Os remédios, sejam eles ingeridos, por via intramuscular ou intravenosa passam por metabolismo hepático, processo chamado de biotransformação. Essa biotransformação também ocorre nos rins e em outros tecidos, mas a maior porcentagem dela ocorre no fígado. O objetivo desse metabolismo é transformar o fármaco em uma substancia que possa ser excretada pelos rins. Alguns distúrbios hepáticos influenciam nessa biotransformação, por isso a importância de acompanhar e abordar todas as medicações que são utilizadas. Com a alteração da biotransformação, pode-se aumentar a disponibilidade do fármaco no organismo de forma que uma dose que seria terapêutica torna-se prejudicial para essas pessoas
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        É importante lembrar que acometimentos hepáticos também podem influenciar na produção de albumina - uma proteína importante no "transporte" do fármaco.  Enquanto o medicamento está ligado a essa proteína, ele não está "ativo", por isso quando se diminui a quantidade de albumina aumenta a quantidade de "fármaco ativo" circulante. Como consequência da hipoalbuminemia (baixa quantidade de albumina no sangue), da mesma  forma que acontece com a biotransformação, uma dose que seria terapêutica torna-se prejudicial.

        Além dos fatores já citados, o paciente que possui problemas hepáticos pode sofrer de uma alteração na circulação no fígado e isso pode alterar o metabolismo de primeira passagem (que é o metabolismo responsável por diminuir a quantidade da droga ativa que chegará a circulação sistêmica que é a circulação que leva o medicamento para os outros tecidos). Tal alteração também se relaciona com a necessidade de ajuste de dose nesses pacientes.

        Os fatores acima foram abordados com o intuito de mostrar ao leitor a importância, em especial a esses pacientes, de abolir a automedicação. A avaliação de um ajuste de doses e de interação medicamentosa é fundamental  para evitar efeitos indesejados. É importante que se entenda que medicamento não é só aquele "industrializado", mas também o chás caseiros, os medicamentos naturais. Convidamos os leitores a conversar sobre isso no próximo encontro com seu médico! Não se esqueça de falar para ele todos os medicamentos que você faz uso, inclusive os chás e ervas!

Fitoterapia: riscos e danos hepáticos

Autor: Mastroiani Rodrigues Costa Araújo - Aluno da Faculdade de Medicina da UFMG

Muitas substâncias, como agrotóxicos, pesticidas, álcool e medicamentos de uso rotineiro, produzem lesões hepáticas. Algumas plantas também são responsáveis por danos hepáticos e muitas delas são usadas regularmente para fitoterapia e preparo de chás naturais.
Vários dos chamados fitoterápicos são utilizados por automedicação ou por prescrição médica e a maior parte não tem o seu perfil tóxico bem conhecido. O risco aumenta com a utilização de compostos contendo várias plantas, com a seleção inadequada da porção atóxica da mesma e pela contaminação química ou por micro-organismos em virtude do armazenamento inadequado. Outros fatores que contribui para maior risco são a não informação do paciente sobre o uso de plantas na consulta e o não reconhecimento pelos médicos dos eventos adversos associados com o uso de fitoterápicos.
O diagnóstico das hepatopatias provocadas por ervas é preponderantemente clínico e de difícil comprovação em virtude da ausência de manifestações clínicas e bioquímicas específicas, sendo necessária a exclusão de outras patologias hepáticas. A suspensão imediata do agente responsável é ainda a melhor opção terapêutica, devendo evitar-se a sua reintrodução ou mesmo a administração de substâncias com estruturas químicas semelhantes em virtude do risco de desencadear doença hepática grave, às vezes com evolução fatal.




A doença hepática induzida por produtos naturais varia desde assintomáticas com alterações das enzimas hepáticas até hepatites agudas ou crônicas, síndrome de obstrução sinusoidal e mesmo cirrose hepática e hepatite fulminante. Além disto, muitos produtos naturais podem interagir com medicamentos tradicionais, interferindo no seu metabolismo e modificando sua ação terapêutica ou exacerbando seus efeitos hepatotóxicos.




Algumas plantas comumente usadas causadoras de hepatotoxicidade são:

- Alcaloides da Pirrolizidína – As principais espécies implicadas são Heliotropiun, Senecio,  Crotalaria e Confrei.Tem potencial hepatotóxico bem conhecido, principalmente por produzir síndrome de obstrução sinusoidal. Em altas doses induzem doença hepática aguda com dor abdominal, hepatomegalia e ascite, icterícia também pode estar presente. Pode haver hepatite fulminante e em exposição prolongada desencadeia hepatites crônicas e cirrose. A mortalidade é alta, atingindo a 20 a 40% das pessoas expostas.

- Porangaba - (Cordia salicifolia) – Conhecida também como cafezinho, chá de mato, chá de bugre, chá de frade tem como constituinte a alantoína. É responsável por lesões tipo hepatocelular, com elevações discretas das aminotransferases.

- Chá Verde – (Camellia sinensis) – É uma das bebidas naturais mais consumidas no mundo, sendo utilizada como planta medicinal para várias situações. Alguns poucos casos de hepatite do tipo misto têm sido descritos com seu uso principalmente em mulheres. A lesão hepática do tipo hepatocelular, de evolução benigna, mas hepatite fulminante já foi descrita. Sua hepatotoxicidade praticamente inexiste, quando o chá é preparado na forma tradicional, utilizando-se água fervente ao contrário dos produtos industrializados que fornecem o chá nas preparações em cápsulas ou provocam seu preparo com  derivados hidroalcoólicos.

- Germander – Conhecida como erva cavalinha, é usada comumente para tratamento de dores abdominais, obesidade e como antipirética. Gera manifestações clínicas de hepatite, entre 3-18 semanas após início do seu uso, geralmente quando utilizada em doses superiores a 600mg/ dia. Utilização prolongada induz hepatite crônica e cirrose hepática. A desnutrição e a indução enzimática entre outros fatores favorecem a hepatotoxicidade.
 - Ervas Chinesas – As principais em uso no Brasil são:
•Jin Bu Huan – Usada como analgésica e sedativa, pode produzir hepatite aguda e recentemente foi descrito também o desenvolvimento de hepatite crônica pelo seu uso.
• Syo-Saiko-To – Usada como antipirética, tornou-se popular, ao ser utilizado em alguns países como tratamento alternativo da hepatite C, havendo relatos da diminuição da incidência do carcinoma hepatocelular com seu uso. No entanto pode haver agravamento da hepatite C. Hepatite aguda e crônica, fibrose hepática, esteatose e colestase têm sido relatadas com seu uso.
• Ma-huang – É relacionada com casos de hepatite aguda grave com manifestação colestática.

- Sacaca – (Croton cajucara benth) – Comum na Amazônia é usada popularmente para tratamento da obesidade e hipercolesterolemia, pode causar hepatite aguda, crônica e até mesmo fulminante.

- Kava-Kava – (Piper methysticum) – Vários relatos de hepatite aguda têm sido apresentados, alguns com evolução grave, evoluindo para transplante hepático e mesmo para morte.

- Sena (Cássia angustifólia) – Utilizada como laxante, foi responsabilizada por hepatite aguda em pessoas que usavam doses elevadas.

- Isabgol - (Plantago ovata) – Usado na constituição de muitos laxantes, tem sido relacionado como causador de hepatite aguda, com presença de fibrose e células gigantes na histologia hepática.

- Valeriana - (Valeriana offi cinallis) – Alguns casos de hepatite aguda têm sido relatadas com seu uso, inclusive com hepatite fulminante.

- Poejo - (Mentha pulegium) – Seu constituinte tóxico é a pulegona, pode produzir hepatite aguda e mesmo hepatite fulminante.

- Quelidônia-maior - (Chelidonium majus) – Muitos são os relatos de hepatotoxicidade com seu uso, principalmente hepatites colestáticas associadas a baixos títulos de autoanticorpos, sugerindo mecanismo de autoimunidade, manifestado após períodos variados da sua ingestão.

- Cáscara Sagrada - (Rhamnus purshiana) – É utilizada principalmente como erva laxativa. Tem sido implicada como causadora de hepatite colestática, mas também por lesão hepática mais importante, como hepatopatia crônica.

- Chaparral - (Larrea tridentata) – Tem sido usada para tratamento de resfriados comuns e ultimamente até para doenças mais sérias, como portadores do vírus HIV. Induz doença hepática aguda colestática. Também foi descrita evolução para cirrose hepática e hepatite fulminante com necessidade de transplante do fígado.

Dessa forma, é possível notar que um significante número de plantas e chás, ditos medicinais, e usados de maneira rotineira, como medicações alternativas, têm sido implicados como causadores de lesões hepáticas variadas. Deste modo, a investigação sistemática do uso de chás caseiros deve ser realizada na pesquisa diagnóstica de doenças hepáticas de difícil esclarecimento. A farmacovigilância dos  fitoterápicos deve ser realizada para identificar os efeitos indesejáveis desconhecidos, quantificar os riscos e identificar os fatores de riscos e mecanismos, padronizar termos, divulgar experiências, entre outros, permitindo seu uso seguro e eficaz.




REFERÊNCIAS:

SILVEIRA, P. F; BANDEIRA, M.A;DOURADO, P.S. Farmacovigilância e reações adversas às plantas medicinais e fitoterápicos: uma realidade. Revista Brasileira de Farmacognosia Brazilian Journal of Pharmacognosy 18: 618-626, Out./Dez. 2008.

SOUZA, A.F.M. Hepatotoxicidade por Chás. Rev Suplemento Hepatotoxicidade - Fev2011 - Normal. indd 22.

Portal da saúde. Programa nacional plantas medicinais e fitoterápicos. Acesso em 2013. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/plantas_medicinais.pdf